O céu está vermelho, atrás e acima da montanha. Posso ver uma estrela que antes não piscava tanto, não tanto antes de vê-la. Não, a noite fria não ensinou a amar mais o meu dia. Acendo mais um cigarro, procuro a luz para escrever. Qual luz?
Essas vozes existem, mas estão vivas? O que é estar vivo? Um transeunte passa seu tempo dissimulado rogando pelo fim das léguas. Eu não me importo. A fumaça desaparece. A mulher da limpeza vai e volta, fala. E as plantas continuam as mesmas de sempre. Meu relógio marca 18:17. Uma professora diz algo que não me interessa. Rio um riso nulo no lugar de dar com ombros. Muita gente neste mundo que não faz a menor falta.
Não quero ser agressivo. Apenas não preciso ser notado. Sequer sei se são verdades próprias. O questionamento fundamental não deve partir da existência. Tudo existe. A angústia de uma alma pensante vem da ideia de vida ou não vida. Também não se trata da morte. Ou estar morto é um transe, mas isso seria alguma vida. Se vida e morte são um transe, logo uma vida aniquila uma morte - há uma morte para cada vida e cada vida para uma morte; nenhuma vida ou nenhuma morte. Há um lado obscuro, tentador, dentro de uma luz; ou alguma quantia de luz no caos total, na escuridão, no fim. Fim, palavra errada. Incerta. Talvez distante ou curta demais.
Presença merece valor na observação, mesmo contraditórias as coordenadas que emergem da visão. Tudo isso está dentro de mim? Afinal, quem sou? Repito, não é a ideia de existência que incomoda. Quem comanda? Tudo que faço, realizo, apresento - é meu/sou eu? Um chão cheio de pedregulhos. Pequenas partes de pedras, cinzas. Um todo fracionado - é um todo? Às vezes me sinto assim. A grande composição de nada que represente singularmente o tempo, que também é uma fração de algo cujo nome é desconhecido. Estar presente nada tem a ver com dor - os poetas insistem nesse miasma.
Quando dirijo pela estrada, sempre penso nessas dores necessárias - elas são o aviso de que as coisas estão indo bem. Do contrário, o pensamento seria uma verdade ferida. Nas convulsas noites mal dormidas, vejo novas possibilidades que acalentam ou ofendem. Sonhos mesclados em tons realistas e mais uma vez: o que é a vida; ou, o que estou vivendo é real?
Tenho tanto a fazer...mas a preguiça me banha a alma. A preguiça faz sentir um contentamento na desistência de cada dia. A preguiça guia-me até a pior partícula do meu espírito ignorante. Nasci cansado ou a preguiça é a irmã gêmea que engoli nos primeiros ares do mundo.
Nada importa. Empolga-me completamente a ideia de beber cerveja. Muitas cervejas e realizo um grande sonho: esquecer-me. Mas antes de qualquer amargor, uma dose de arrepios, um punhado de obstáculos e uns beijos. Gosto muito de beijar. Tanto quanto de beber cerveja.
Hoje estive meloso sobremaneira - acredito ser a tinta vermelha. Minha graciosa esposa presenteou-me com uma caneta de ponta fina e firme. Precisa e agradável esfera deslizando tinta fresca, e cansaço. Um cansaço que faz pensar estar morto. Sou resgatado por sua voz, meu amor. Desperta-me de um torpor torturante. Sou ressuscitado em vida, porque o corpo é presente e funcional. Estou morto quando vejo, de fato, a vida. Quando vejo o que sou e aprendo a aceitar. Volto a viver sempre que algo exige uma luta. Mas o trabalho é cansativo. Mata-me a cada dia, a cada momento de incompreensão e tenho que repetir palavra a palavra. A mesmice é igualmente mortal. Estou depredado, escrevo linhas tortas, e, por mais afortunada a mente, maior é o tombo.
A mente é um cidadão controlador e deveras malicioso - os vícios soam alívio. Mais uma ilusão. Como o dia. Eu vejo a noite, eu sou a noite - sinto o cheiro da noite. Porque ela é real.
Sinceramente, não sei mais o que importa. A única alegria é a minha nova esposa. São momentos de paz ao seu lado, de se reconhecer o ser/anjo - a ligação com o sem-tempo. O sem-tempo é uma anomalia de forças gerenciais abertas, resultantes de um fluxo respiratório natural e divino. Não tenho a menor ideia do que estou fazendo. É o tempo. A liberdade de não se pensar, também é uma abertura para o sem-tempo.
Minha esposa é a minha âncora para a vida. Mas a corda pode se romper sem esforços extraordinários. Penso em uma nova profissão - uma em que não exija tamanho contato com outros humanos mortos.
Estamos todos deteriorados e mortos.
*texto escrito entre 2022 e 2023, debaixo de um puxadinho onde se amontoavam mobiliários inutilizados num canto esquecido da escola
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