segunda-feira, 4 de maio de 2026

No puxadinho dos inutilizados: pensamentos e cigarros

    O céu está vermelho, atrás e acima da montanha. Posso ver uma estrela que antes não piscava tanto, não tanto antes de vê-la. Não, a noite fria não ensinou a amar mais o meu dia. Acendo mais um cigarro, procuro a luz para escrever. Qual luz? 

    Essas vozes existem, mas estão vivas? O que é estar vivo? Um transeunte passa seu tempo dissimulado rogando pelo fim das léguas. Eu não me importo. A fumaça desaparece. A mulher da limpeza vai e volta, fala. E as plantas continuam as mesmas de sempre. Meu relógio marca 18:17. Uma professora diz algo que não me interessa. Rio um riso nulo no lugar de dar com ombros. Muita gente neste mundo que não faz a menor falta.

    Não quero ser agressivo. Apenas não preciso ser notado. Sequer sei se são verdades próprias. O questionamento fundamental não deve partir da existência. Tudo existe. A angústia de uma alma pensante vem da ideia de vida ou não vida. Também não se trata da morte. Ou estar morto é um transe, mas isso seria alguma vida. Se vida e morte são um transe, logo uma vida aniquila uma morte - há uma morte para cada vida e cada vida para uma morte; nenhuma vida ou nenhuma morte. Há um lado obscuro, tentador, dentro de uma luz; ou alguma quantia de luz no caos total, na escuridão, no fim.    Fim, palavra errada. Incerta. Talvez distante ou curta demais.

    Presença merece valor na observação, mesmo contraditórias as coordenadas que emergem da visão. Tudo isso está dentro de mim? Afinal, quem sou? Repito, não é a ideia de existência que incomoda. Quem comanda? Tudo que faço, realizo, apresento - é meu/sou eu? Um chão cheio de pedregulhos. Pequenas partes de pedras, cinzas. Um todo fracionado - é um todo? Às vezes me sinto assim. A grande composição de nada que represente singularmente o tempo, que também é uma fração de algo cujo nome é desconhecido. Estar presente nada tem a ver com dor - os poetas insistem nesse miasma. 

    Quando dirijo pela estrada, sempre penso nessas dores necessárias - elas são o aviso de que as coisas estão indo bem. Do contrário, o pensamento seria uma verdade ferida. Nas convulsas noites mal dormidas, vejo novas possibilidades que acalentam ou ofendem. Sonhos mesclados em tons realistas e mais uma vez: o que é a vida; ou, o que estou vivendo é real?

    Tenho tanto a fazer...mas a preguiça me banha a alma. A preguiça faz sentir um contentamento na desistência de cada dia. A preguiça guia-me até a pior partícula do meu espírito ignorante. Nasci cansado ou a preguiça é a irmã gêmea que engoli nos primeiros ares do mundo. 

    Nada importa. Empolga-me completamente a ideia de beber cerveja. Muitas cervejas e realizo um grande sonho: esquecer-me. Mas antes de qualquer amargor, uma dose de arrepios, um punhado de obstáculos e uns beijos. Gosto muito de beijar. Tanto quanto de beber cerveja. 

    Hoje estive meloso sobremaneira - acredito ser a tinta vermelha. Minha graciosa esposa presenteou-me com uma caneta de ponta fina e firme. Precisa e agradável esfera deslizando tinta fresca, e cansaço. Um cansaço que faz pensar estar morto. Sou resgatado por sua voz, meu amor. Desperta-me de um torpor torturante. Sou ressuscitado em vida, porque o corpo é presente e funcional. Estou morto quando vejo, de fato, a vida. Quando vejo o que sou e aprendo a aceitar. Volto a viver sempre que algo exige uma luta. Mas o trabalho é cansativo. Mata-me a cada dia, a cada momento de incompreensão e tenho que repetir palavra a palavra. A mesmice é igualmente mortal. Estou depredado, escrevo linhas tortas, e, por mais afortunada a mente, maior é o tombo.

    A mente é um cidadão controlador e deveras malicioso - os vícios soam alívio. Mais uma ilusão. Como o dia. Eu vejo a noite, eu sou a noite - sinto o cheiro da noite. Porque ela é real.

    Sinceramente, não sei mais o que importa. A única alegria é a minha nova esposa. São momentos de paz ao seu lado, de se reconhecer o ser/anjo - a ligação com o sem-tempo. O sem-tempo é uma anomalia de forças gerenciais abertas, resultantes de um fluxo respiratório natural e divino. Não tenho a menor ideia do que estou fazendo. É o tempo. A liberdade de não se pensar, também é uma abertura para o sem-tempo. 

    Minha esposa é a minha âncora para a vida. Mas a corda pode se romper sem esforços extraordinários. Penso em uma nova profissão - uma em que não exija tamanho contato com outros humanos mortos. 

    Estamos todos deteriorados e mortos.


*texto escrito entre 2022 e 2023, debaixo de um puxadinho onde se amontoavam mobiliários inutilizados num canto esquecido da escola









 

quarta-feira, 11 de março de 2026

1° DE ABRIL

    Falhou-me o conhecimento, então fui atrás da cultura não tão inútil. É o dia da mentira desde 1564, quando Carlos IX, da França, adotou o calendário gregoriano. Como os pombos-correios haviam sido devorados diante da fome católica/protestante, nas Guerras de Religião (sempre ela!), a notícia se restringiu a uns poucos chegados do rei. Os desavisados ainda comemoravam a chegada do ano novo em 1° de abril.

    Deixando estas tolices de lado, essa data me é um tanto quanto simbólica nesta espera angustiante. Imaginem um sujeito, aos 48 anos intensos, nesta altura do campeonato, pensar em ser que não é. Ou ser quem não pensava ser. Descobrir que praticou seu amado teatro, não por simples alegria, mas por necessidade de pertencer. Por tentar, em vão, ter uma vida como a de tantos e tantas. Na verdade um tonto.

      Entre muitas idas e vindas de lugares, cidades, pessoas, mulheres, amigos e amigas, parentes, locais de trabalho que simplesmente não permaneci. Só passei e fui. E sempre a pergunta: por que eu sou assim?

    Por que sou um completo inconformado com o mundo, com o sistema, com a vida? Será que minha alma já esteve quietinha em algum limbo, fora desta esfera azul, e por algum motivo o Deus cristão Me olhou e disse severo: desce!

    E eu, meio ou muito puto, obedeci. Obedeci porque talvez haja alguma coisa a se fazer, que ainda não descobri.

    De jornalista a adesivador, de porteiro de fábrica de farinha a fiscal de direito autoral, de assessor de imprensa a operador de telemarketing (em muitas infelicidades), de ator (em muitas felicidades), e de garçom a professor de história, ao fim. Ah, esqueci de outra profissão em que sou mestre: a de desempregado.

    Certa vez, após quase estabelecer o mínimo de ordem para o início da aula, reparei uma garotinha usando um fone de ouvido dos grandes. Chamei-a e disse para retirá-los. Ela veio até minha mesa e respondeu: "não é fone professor, é um abafador".

- Abafador? E antes que tentasse entender, ela os retirou e colocou em mim. Não tive sequer tempo de negar a experiência, como sempre neguei coisas inesperadas. 

    E eis que encontrei um princípio de paz no meio da guerra. Foi como se pudesse equalizar o som, editar aquela cena da vida cruel dentro de uma sala de aula.

    A partir daquele momento minha percepção tomou outro rumo. Comecei a reparar melhor nos alunos e alunas neurodivergentes e pensei: será que faço parte desta turma?

    2025 foi meu último ano como professor. Um ano em que vi meus nervos virarem pó. Nove horas dentro de uma escola pública, com salas lotadas, calor insuportável, gritos insuportáveis, cobranças por metas ridículas como se o espaço sagrado de conhecimento fosse uma mera empresa prestes a falir. Essa é a triste condição da educação estadual.

    Desisti. Após seis longos anos, desisti. 

    Mas apenas desistir não basta. Precisava entender tudo que se passava nas minhas mais íntimas camadas. 

    Conheci uma clínica.

    Iniciamos a aventura em janeiro. Desde lá, foram horas de conversas e testes. A última sessão foi em 04/03. Ao sair da consulta, a recepcionista informou que seria necessário um intervalo em torno de um mês para a elaboração do laudo. E que a primeira data na agenda seria justamente 1° de abril.

    Será que eu sou eu? Ou será que me enganei a vida toda?

    O dia da mentira se aproxima, ou será o derradeiro dia da verdade?

    Em ambos os casos haverá estreita correlação. Se for considerado neurodivergente, então mascarei meus sintomas a ponto de enganar a todos até hoje. Se não for, terei ainda mais dificuldades em compreender o que sou, o que sinto e o que tenho que fazer.

    Chovem trovoadas de pensamentos, como água cai do céu nesta Ubatuba.  

No puxadinho dos inutilizados: pensamentos e cigarros

     O céu está vermelho, atrás e acima da montanha. Posso ver uma estrela que antes não piscava tanto, não tanto antes de vê-la. Não, a noi...