quarta-feira, 11 de março de 2026

1° DE ABRIL

    Falhou-me o conhecimento, então fui atrás da cultura não tão inútil. É o dia da mentira desde 1564, quando Carlos IX, da França, adotou o calendário gregoriano. Como os pombos-correios haviam sido devorados diante da fome católica/protestante, nas Guerras de Religião (sempre ela!), a notícia se restringiu a uns poucos chegados do rei. Os desavisados ainda comemoravam a chegada do ano novo em 1° de abril.

    Deixando estas tolices de lado, essa data me é um tanto quanto simbólica nesta espera angustiante. Imaginem um sujeito, aos 48 anos intensos, nesta altura do campeonato, pensar em ser que não é. Ou ser quem não pensava ser. Descobrir que praticou seu amado teatro, não por simples alegria, mas por necessidade de pertencer. Por tentar, em vão, ter uma vida como a de tantos e tantas. Na verdade um tonto.

      Entre muitas idas e vindas de lugares, cidades, pessoas, mulheres, amigos e amigas, parentes, locais de trabalho que simplesmente não permaneci. Só passei e fui. E sempre a pergunta: por que eu sou assim?

    Por que sou um completo inconformado com o mundo, com o sistema, com a vida? Será que minha alma já esteve quietinha em algum limbo, fora desta esfera azul, e por algum motivo o Deus cristão Me olhou e disse severo: desce!

    E eu, meio ou muito puto, obedeci. Obedeci porque talvez haja alguma coisa a se fazer, que ainda não descobri.

    De jornalista a adesivador, de porteiro de fábrica de farinha a fiscal de direito autoral, de assessor de imprensa a operador de telemarketing (em muitas infelicidades), de ator (em muitas felicidades), e de garçom a professor de história, ao fim. Ah, esqueci de outra profissão em que sou mestre: a de desempregado.

    Certa vez, após quase estabelecer o mínimo de ordem para o início da aula, reparei uma garotinha usando um fone de ouvido dos grandes. Chamei-a e disse para retirá-los. Ela veio até minha mesa e respondeu: "não é fone professor, é um abafador".

- Abafador? E antes que tentasse entender, ela os retirou e colocou em mim. Não tive sequer tempo de negar a experiência, como sempre neguei coisas inesperadas. 

    E eis que encontrei um princípio de paz no meio da guerra. Foi como se pudesse equalizar o som, editar aquela cena da vida cruel dentro de uma sala de aula.

    A partir daquele momento minha percepção tomou outro rumo. Comecei a reparar melhor nos alunos e alunas neurodivergentes e pensei: será que faço parte desta turma?

    2025 foi meu último ano como professor. Um ano em que vi meus nervos virarem pó. Nove horas dentro de uma escola pública, com salas lotadas, calor insuportável, gritos insuportáveis, cobranças por metas ridículas como se o espaço sagrado de conhecimento fosse uma mera empresa prestes a falir. Essa é a triste condição da educação estadual.

    Desisti. Após seis longos anos, desisti. 

    Mas apenas desistir não basta. Precisava entender tudo que se passava nas minhas mais íntimas camadas. 

    Conheci uma clínica.

    Iniciamos a aventura em janeiro. Desde lá, foram horas de conversas e testes. A última sessão foi em 04/03. Ao sair da consulta, a recepcionista informou que seria necessário um intervalo em torno de um mês para a elaboração do laudo. E que a primeira data na agenda seria justamente 1° de abril.

    Será que eu sou eu? Ou será que me enganei a vida toda?

    O dia da mentira se aproxima, ou será o derradeiro dia da verdade?

    Em ambos os casos haverá estreita correlação. Se for considerado neurodivergente, então mascarei meus sintomas a ponto de enganar a todos até hoje. Se não for, terei ainda mais dificuldades em compreender o que sou, o que sinto e o que tenho que fazer.

    Chovem trovoadas de pensamentos, como água cai do céu nesta Ubatuba.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário

No puxadinho dos inutilizados: pensamentos e cigarros

     O céu está vermelho, atrás e acima da montanha. Posso ver uma estrela que antes não piscava tanto, não tanto antes de vê-la. Não, a noi...